O sucesso do esporte venezuelano não acontece por acaso




por Leonardo Marson

14 de maio de 2012 - Preparem-se: o post é enorme. Pastor Maldonado venceu o Grande Prêmio da Espanha da Fórmula 1 na manhã de ontem (13). Mas a vitória do piloto da Williams não pode ser vista apenas como a primeira vitória de um venezuelano na maior categoria do automobilismo mundial, mas sim como resultado de um programa de incentivo ao esporte do governo de Hugo Chavez (talvez uma das poucas coisas boas que o presidente venezuelano fez), que utiliza a PDVSA para ajudar os pilotos da “república socialista bolivariana”.
Durante o final de semana da São Paulo Indy 300, disputada no final de abril em São Paulo, o piloto Ernesto Viso disse aquilo que os mais observadores já perceberam a algum tempo: que o governo venezuelano passou a se preocupar mais com o desenvolvimento do esporte no País:
“Sem dúvida a Venezuela passou a levar o esporte mais a sério. Por muitos anos o esporte foi esquecido em nosso país, diferentemente do que o Brasil e outros países. Nos últimos anos houve esse movimento de apoio não só com o automobilismo, mas com os esportes em geral. Recebemos um grande apoio, o que, obviamente, é muito necessário.”
Basta observarmos alguns esportes: no futebol, o país conhecido pelas misses deixou a algum tempo de ser o saco de pancadas da América do Sul e hoje estariam classificados para a próxima Copa do Mundo, eliminando Colômbia e Paraguai. O vôlei tem como melhor resultado a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de 2003, passando na semifinal pela seleção brasileira que viria a ser campeã olímpica um ano depois.
Voltando às pistas, Maldonado é apenas o quarto piloto venezuelano a correr com um Fórmula 1, após Ettore Chimeri em 1960, Johnny Ceccoto (conhecido como primeiro companheiro de equipe de Ayrton Senna) e Viso, que fez testes pela Williams. Partindo para outras categorias, lembraremos de Milka Duno, que não tem talento nenhum como piloto, mas que já disputou até as 500 Milhas de Indianapolis.
O Rodrigo Mattar, comentarista de automobilismo do canal Sportv fez um texto muito interessante no blog dele sobre o assunto, e tomo a liberdade de reproduzi-lo neste espaço. Tirem as suas conclusões.

Venezuela. País sul-americano com pouco mais de 916 mil quilômetros quadrados de território e cerca de 28 milhões de habitantes, que sempre foi associado às competições de Miss Universo. De fato, a república bolivariana já nos apresentou algumas das mulheres mais bonitas do planeta. Diferentemente de Brasil e Argentina, sempre foi considerado um país sem muita tradição no esporte, em diversas modalidades, principalmente no futebol, onde só nos últimos tempos deixou de ser o saco de pancadas do continente.
Mas para quem tem boa memória, a bandeira amarela, azul e grená já tremulara nas pistas mundo afora, quando dois heróis daquele país surgiram empunhando o pavilhão com orgulho: Johnny Cecotto e Carlos Lavado foram verdadeiros mitos, ídolos vivos impulsionados por uma equipe que transpirava paixão e orgulho de ser venezuelana – a Venemotos, de Andrea Ippolito, por onde também o brasileiro Alexandre Barros disputaria o Mundial da categoria 250cc, em 1989.
Os anos passaram, a Venemotos ficou pelo caminho. Johnny Cecotto, que se tornara um razoável piloto em quatro rodas, teve curtíssima carreira na Fórmula 1. Se estoporou num acidente feio com sua Toleman em Brands Hatch e acabou por terminar sua carreira como piloto BMW em competições de carros de turismo.
Veio Milka Duno, uma bonita representante do país, sem nenhum talento natural para guiar um carro de corrida (isso é fato), mas com combustível financeiro suficiente para levá-la às principais categorias do automobilismo estadunidense, com exceção feita a Nascar. Até das 500 Milhas de Indianápolis ela participou.
Ao mesmo tempo em que Milka chegava às pistas, um certo Hugo Chávez assumia a presidência da Venezuela. E de repente, não mais que de repente, uma marca chamada PDVSA se espalhou como filhotes de coelho, com o surgimento de uma geração de pilotos que jurávamos que aquele país jamais seria capaz de oferecer ao automobilismo.
Claro que a qualidade de vários deles é discutível, mas hoje temos aí EJ Viso na Fórmula Indy; Pastor Maldonado na Fórmula 1; Johnny Cecotto, Rodolfo González e Giancarlo “Gato” Serenelli na GP2 Series; Enzo Potolicchio revezando-se entre o Mundial de Endurance e a Grand-Am; Alex Popow e Emilio Di Guida guiando na Grand-Am e na American Le Mans Series e Gaetano Ardagna-Pérez no Europeu de GT3.
São nove pilotos com algo em comum. O incentivo do governo de Hugo Chávez, tão criticado pelos capitalistas – mas que se não fosse por ele, não veríamos Maldonado vencer no domingo último o GP da Espanha, afora os bons resultados que alguns desses pilotos conquistam nas categorias das quais tomam parte.
Enquanto assistimos a Venezuela crescer no automobilismo internacional, o Brasil definha. Temos dois pilotos na Fórmula 1, é verdade, mas as perspectivas futuras são sombrias. E é aí que mora o perigo: não temos uma PDVSA, não temos incentivo do governo federal no automobilismo – nem aqui, nem lá fora. Quem bota dinheiro em gente como Bruno Senna e Felipe Nasr é Eike Batista. Ah… alguém dirá que o carro de Nasr tem um logotipo do Banco do Brasil. Pergunto eu: alguém nota?
A Petrobras, que é concorrente direta da PDVSA, já patrocinou categoria escola, equipes de Fórmula 3 e Fórmula 3000. Não houve retorno com títulos e o investimento se esvaiu. Hoje, além de uma estranha – para muitos – ligação com o River Plate na Argentina e com a equipe Honda de TC2000, a Petrobras limita-se a patrocinar a Seletiva de Kart organizada pelos irmãos Carcasci, o Brasileiro de Marcas e a Fórmula Truck.
É pouco? Na minha opinião, sim. É pouco.
Num momento em que perdemos o foco nas categorias de base, com o kart caríssimo, a Fórmula Futuro extinta e a Fórmula 3 sul-americana sem rumo e nenhuma perspectiva de ter a temporada 2012 realizada – lembrem-se que já estamos em maio – a Petrobras poderia exercer um papel fundamental para o reerguimento do automobilismo nacional, incentivando o surgimento de jovens talentos como a PDVSA faz com os pilotos da Venezuela.
Seria pedir demais para um país que se preocupa tanto com uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, lembrar que existem outros esportes em que o Brasil é muito mais tradicional do que qualquer outro país da América do Sul?
A Petrobras tem um lucro líquido, segundo consta, de R$ 33,3 bilhões de reais contra apenas R$ 2 bilhões da PDVSA. Não pode uma empresa deste porte deixar o automobilismo chupando dedo enquanto lá em Caracas, capital da Venezuela, Pastor Maldonado é orgulho nacional e nossos pilotos passam, cada vez mais, por situações constrangedoras nas pistas.

Foto: blog “A mil por hora”

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