Nossa vida é você



por Mauro Beting (texto publicado no Facebook do jornalista)



O doutor Luc era otorrinolaringologista. Uma hora de consulta era meia hora de Palmeiras. Ele cuidava da garganta que arde da família. Do ouvido que há muito não ouvia os rojões campeões. Do nariz que não sentia o sabor de um título desde 2008. O doutor não pôde ver o Verdão voltar do infernal Couto Pereira como bicampeão da Copa do Brasil. Morreu na véspera de ver o Palmeiras dele como Palmeiras. Campeão. Como ele sempre foi na medicina e na arquibancada mais vazia sem um coração verde para bater como sempre. No enterro, horas antes da final, a família estava verde de luto. Muitos vestiam camisas do Palmeiras. Da bandeira que cobriu o caixão com o “orgulho” que só quem não é Palmeiras acha que o torcedor perdeu. (Colegas de imprensa de outros credos e cores: ninguém perde “orgulho” quando perde um campeonato ou deixa de vencê-lo por tanto tempo. Quem torce por um time – como vocês também têm os seus – não torce por títulos. Torce por amor).
Meu tio Chico Flávio me levava com o filho Alessandro e os primos ao estádio para ver o nosso time campeão ano sim, ano não, nos anos 70. Mesmo quando as coisas não andavam e não jogavam bem, o Fafo acreditava. Enchia o portamala do Fiat 147 para ver malas que nos infelicitaram nos anos 80. Meu tio agora está no hospital se recuperando de uma intervenção no coração que suportou os 90 minutos de um Coxa nervoso e amuado demais contra um Palmeiras que jogou melhor em Curitiba. Mesmo perdendo Thiago Heleno (o melhor até sair lesionado, aos 36), mesmo se arrastando com Luan lesionado nos 20 finais, o invicto campeão empatou com um gol de Betinho, no único lance que acertou no clube.
Rafa é filho do Sérgio, amigo velho de busão, colégio, festas e Palestra. Ele está no hospital fazendo quimioterapia para se recuperar de uma doença que irá vencer. Como o time dele superou erros próprios, desconfianças, destemperos, desfalques, suspensões, limitações, adversidades grandes como os adversários.
Em suas camas de hospital, Chico Flávio e Rafa vibraram mais do que deveriam pelas suas convalescenças. Mas há corações que suportam tantas dores e dissabores seguidos. Eles venceram. O time deles, também. Tudo se recupera. Tudo se supera. Tudo volta a ser o que é. Como em algum tempo o Flávio e o Rafael vão estar com o Palmeiras. Como o Palmeiras. Um colosso que pode adoecer, pode se prostrar, merece ser protestado. Mas é potestade que vence qualquer tempestade. É torcedor que joga com o coração quente como a testa do febril Henrique, colosso no Alto da Glória. De mais um Marcos que garante a Assunção palestrina. Do time que não é mais. Não é menos. É Palmeiras. Basta.

Foto: Marcos Ríbolli

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